domingo, 7 de janeiro de 2018

Na pedra

Vi na pedra o rosto dela,
sorrindo vendo sol acordar,
chorando vendo sol ir se deitar.

Cajueiro

Das areias desse chão
sugas as águas do sertão
sede castanha pro amor
sede caju para o calor

Cajueiro...

Tão caldo
Tão sombreiro

Abro a janela,
a noite obscura
os zumbidos das criaturas

Gargalhada

O riso dos vizinhos
O coaxar dos sapos
O sorriso das hienas
Eu que matei uma fada
pensando que era cigarra
me encontro desprotegida.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Poema do que não existe

Lindo com o Belo,
Esplendoroso de tão maravilhoso,
Excelente por ser delicado,
Ora amado, ora odiado,
Péssimo de tão grosseiro,
Sujo por ser asqueroso,
Tão feio quanto horroroso,

Bipolar, mas inteiro!

Poema de resposta: À Kafka

Por sua culpa,

Adquiri alergia aos papéis amarelados,
Às gavetas dos arquivos
E aos carpetes mofados.

Tenho medo das cadeiras das salas-de-espera,
Dos corredores escuros
E das portas entreabertas.

Evito areia movediça,
Conversa escorregadia
E a sede da justiça.

Não confio mais no que vejo
Na TV, na internet, no espelho,

Tampouco no que leio ou escrevo.

Cartografia da nostalgia

Como eu queria que toda rua fosse Da Alegria, Da Amizade ou Da União.
Que as ruas não fossem jamais Da soledade ou Da Angustura.  
Que toda Aurora fosse Do Sol.
Que a rua Da Luta se tornasse enfim Da Vitória ou Da Glória.
É que, Do Alto da Saudade, lembro de quando as ruas eram só Idas, ainda não havia os retornos Do Progresso.
Tinha rua Do Passarinho, Dos Coelhos, Do Lírio, Do Jasmim, avenida que era Floresta, tinha Flores, Pinheiros, Esperança, Mangueira e Carneiro que não era Vilela.
Toda Estância era vista do Alto da Bondade.
Não precisava ser Dois Irmãos para ser Dois Unidos, tampouco existia nessa época Linha do Tiro. Peixinhos nadavam em Aguazinha e Jardim Primavera era do lado de casa.
Nessa época a  Beira Rio era dos Navegantes e o encontro do Rio com o Mar se dava no Cais do Apolo.
No tempo Da Saudade e do Sossego, onde tudo era Concórdia, já dizia o Velho Chico, acho que a gente nem tinha nascido.