terça-feira, 17 de novembro de 2015

Canção do Exílio de Mariana

Minha terra tem Mariana
Onde morreu o Sabiá
Aves que ali gorjeavam,
padeceram de lamentar.

Nosso céu tem menos brilho,
Nossas várzeas zero flores
Nossos peixes já sem vida,
De nossa vida restam dores.

Em cismar sozinho, à noite
só tristeza encontro eu lá;
Minha terra tem Mariana,
Onde morreu o Sabiá.
Minha terra tem horrores,
Criminosos que não encontro cá.

Em cismar, sozinho, à noite
só tristeza encontro eu lá;
Minha terra tem Mariana,
Onde morreu o Sabiá.

Não permita, Deus, que o rio morra,
e que os bandidos se safem pra cá;
Que paguem atrás das grades
pelos crimes ambientais de lá;
Que um dia a vida volte,
e que volte o Sabiá.

Saudade

Do sonho pueril,
Do paraíso infantil,
Do gosto da goiabada,
Da vida tão certa, tão dada.

De brincar no quintal
Do avô tão paternal,
Das tardes de Domingo,
Dos dias findos.

De andar no muro,
De ouvir um sussurro.
De comer jambo,
De falar "te amo".

De desperdiçar o tempo.
De desenhar com o vento.
Das nuvens engomadas,
Da vida soterrada.

Do rio que não verei,
do homem que não serei.
Da princesa que não fui,
Do rio que não flui.

Do fim da guerra,
De começar uma nova era.
Da crença no futuro,
Da luz no fim do túnel.

Do banho sem prazo,
Da vida sem atraso.

Poema pros gatinhos

Em casa somos três
Eu, Valente e Amèlie.
Eu sou o menos humano
entre os que vivem aqui.

Até pareço gente.
Sou o mais racional,pense!
Sem rabo, ando ereto,
uso todo dia o cérebro.

Valente é aventureiro;
Amèlie, amor inteiro.
Vivem sempre o presente,
Respiram amor, sentem.

Rio Doce

A chuva que atormenta a porta,
A lama que soterra a horta.

O ar pesado de peixe morto,
Aorta entupida de desgosto.

O tempo preso neste Rio
Doce que jaz, sangra minério.

Na boca o vermelho, sou rio
e a mastigada dos impérios.

Pancadas à porta, um calafrio...
Rezo pela chuva e espero.



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Bailarinas de cerâmica


Neste palco de papel opaco, 
rodopiam bailarinas de cerâmica.
Paciente, espero o fim da dança,
anunciado pelo tilintar dos passos.

Executo meu ofício, recolhendo os cacos.

Lá fora, o homem guarda a chuva,
escurecendo o dia com sua sombrinha.
Aqui, apago as luzes do teatro,
finda a esperança do próximo ato.

Noturnos à luz do dia,
avançamos sem avanço
os pés presos no solo,
o solo preso no cimento.

Fragmentos de bailarinas no pensamento.



Monocromia

Mais um dia,
tudo bem,
tudo sem,
monocromia.

Monotonia
cinza
que me veste
de asfalto.

Paro na calçada,
na espera
de um sinal,
do próximo passo.

De vermelho,
só os olhos
pesados
de cansaço.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poema diabético

Um poema diabético se origina do leite condensado,
é trabalhado no chocolate
e ao creme de leite é misturado.

Um poema diabético é desprovido do sabor do brigadeiro,
(pausa para um suspiro)
do doce de leite, de goiaba, de jabuticaba ou do sorvete de queijo.

É um poema sem palavras doces,
cajuzinho, beijinho, moranguinho...
Que vê perigo até nos diminutivos!

Mas nem por isso deixa de ser salivante,
aumenta imediatamente a glicose no sangue!