quinta-feira, 28 de junho de 2012

A Narciso

Foi em um dia qualquer que aconteceu.
Me pintava diante do espelho
quando refleti:
talvez aquela não fosse eu.

Coberta de códigos
fui me despindo.
Das alegorias do mundo
me despedindo.

Nua, mirei meu reflexo,
pensava encontrar minha essência.
Mas tantas semelhanças
eram meras aparências.

E aquela aparência
me enebriava.
Quem era ela?
Não era eu , ou era?

Sem coragem para fugir, fiquei alí.
Petrifiquei.
Quanto mais refleti,
menos me enxerguei.

No nevoeiro da mente, me perdia.
Do reflexo, uma luz fugidia
me guiava,
mas também cegava.

Anoiteceu.
Procurei em vão me encontrar.
Tateei meu corpo, a pele, a carne, a sombra,
nada estava lá.

Vagueei  noites sem fim.
Vazio,
era apenas  um cristal frio.
Até que, num clarão, te vi.

Claro e vivo, bem perto, olhavas para mim.
Sorrias,
sorri.
Foi então que compreendi:

Já fui outra
e muitos.
Hoje sou vários e um
reflexo de ti.












Brindo

Brindo
a uma vida inútil,
sem metas ou objetivos,
que não sirva de exemplo,
que a ninguém seja útil!

Brindo
às voltas que dou em torno de meu umbigo,
aos momentos perdidos
aos encontros e desencontros
que tenho comigo!

Brindo
e digo adeus
à busca da felicidade,
à vaidade do ser ou ter
à  morte e à saudade!

Brindo
a essa vida presente,
que em meu peito bate,
na qual tudo pode fazer parte
e também estar ausente!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quero ouvir os chefs da língua me dizerem
que não posso misturar macarrão com cebola
e servir chamando de sopa.

Da seca que não vi

Urubucevando essa paisagem agreste,
superexposta, sem-contraste,dura,
sob o sol de meio-dia, um calor da peste,
vejo ao longe, a se aproximar...
A sede para me lembrar
do gosto salobroso da última água que bebi.

Não há remédio, medicamento é continuar...

Sedento, paro na próxima som...
que de tão incerta não consegue ser inteira.
sem eira, me sento à beira
da fugidia escuridão.

Estou cansado.
O suor me alivia, mas é salgado.
Escuto a fome, penso nos futuros passos...

Ando, ronco, respiro, vejo, água, corro,vôo

Na poça de ilusões, morri afogado
e, pelas aves de rapina, fui levado.

domingo, 10 de junho de 2012

Varal

                                 
Leve                a alma
azul                a roupa
lilás                  a casa
da água             limpa
lava              e acalma

Das lembranças esquecidas

Coloquei as lembranças ao sol.
Estavam todas mofadas, empoeiradas.
Eram lembranças esquecidas,
que estavam numa gaveta,
há muito tempo guardadas.

O sol então clareou
minhas recordações
sem distinção,
me mostrou tudo
num raio, num clarão.

Rapidamente,
coloquei meus óculos escuros.
É que o brilho das memórias
me ofuscava,
cegava.

Sem pensar duas vezes,
atordoado que estava
guardei de novo as lembranças
na gaveta em que estavam trancadas.

Inundação

Água   cidade   construção   pedra   construção   cidade   águaágu
águaágua cidade construção pedra construção cidade águaáguaág
águaáguaáade construção pedra construção cidáguaáguaáguaágu
águaáguaáguaágua construção pedra construção águaáguaáguaá
águaáguaáguaáguaáguatrução pedra conságuaáguaáguaáguaágua
águaáguaáguaáguaáguaáguaáguaedráguaáguaáguaáguaáguaáguaá
águaáguaáguaáguaáguaáguaáguaáguaáguaáguaáguaáguaáguaágua