sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Trajeto à direita


Saio da Rua Em Que Moro, no sentido para onde não tem praia e viro à Direita na rua dos Azulejos Brancos. Cruzo a Avenida Dos Engarrafamentos e sigo pela Rua Da Academia. Dobro na Pracinha Malcuidada e pego a Rua Da Padaria Cara. Sigo reto desviando dos buracos, das bicicletas, dos homens-jumento, dos carros estacionados, dos que vêm em sentido contrário e dos pedestres sem calçada.
Desvio do cachorro sem dono.
Viro à Direita no sinal vermelho. Estou na Rua dos Sinais. Todo sinal é vermelho quando chega minha vez. Será um sinal? Espero. Autômatos noutros carros. O sinal ainda fechado.É preciso botar a máquina para rodar..., acelero, buzino, xingo, grito, corto e vôo, interessa é chegar. Mais um sinal, não desisto, viro à Direita e sigo...na Rua da Meritocracia, onde meretrizes ensinam os valores da sociedade ao nascer Da Aurora.
Aurora que nem mais atinge o quarteirão, bloqueada pelo paredão de cimento. Diminuo a velocidade, a cancela sobe, adentro um bloco de concreto, mas um dia de objeto.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Nostalgia

De ver o sol nascer
De dormir ao amanhecer
De nadar na ressaca do mar

Dos futuros incertos
Dos planos de casamentos
Dos sonhos com apartamentos

Da rosa com espinho
Da manga com fiapo
Da flor do beija-flor

Saudades do beija-flor!



Voa Juquinha II - 2016

Voa Juquinha,
Você está livre.
Voa – voa, à tona, à toa...
Usa tuas asas e ganha essa imensidão.

Decola, larga esse chão...
Meu passarinho, menininho
Que ficou velhinho, sem ser.

Vai cantar noutras árvores e ser feliz.
Se não fosses aqui, quem sabe ali?
Entre palhaços e bruxas, bolinhas e carrinhos,
É assim que vejo a ti.

Deixa nessa terra as lembranças amargas,
Que pela tua carne foram engolidas
E que pelo tempo serão digeridas.

Estás livre de todas as marcas.
Acabaram-se tuas dívidas.
Vai, bate essas asas!

Quero te ver misturado no céu
Verde, azul, branco, rosa, laranja, vermelho, amarelo...

Voando ligeiro, voando liberto.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Controle

Entre a parede,
o muro
e a cerca,
Fronteira.

Entre o condomínio,
o carro
e o campo de concentração,
Prisão.

Entre o relógio,
o chefe
e o salário,
Amargo.

Entre o que fui,
o que sou
e a ânsia,
Vigilância.

curta!

curta a ilusão
curta a razão
curta a dor
curta a alegria
curta a poesia
curta a vida!

sofá

sofá
so far
stars
a piscar
ar
respirar
sofá
so far...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Areia Azul

Às vezes é preciso se afastar para se ver de perto.

Foi caminhando que cheguei à Areia Azul. Não lembro ao certo qual verão foi, mas era verão. Entre o céu e o mar, tudo era areia e suor. A areia para se embalar de céu, o suor para alimentar o mar.

Perdi às contas de quantos passos são necessários para conhecer Areia Azul inteira. Às vezes um, nenhum, mil, depende. Areia Azul se apresenta diferente para cada visitante. É que as areias estão sempre em movimento.

Areia Azul se localiza exatamente entre o que foi e o que pode vir a ser.  Lá o tempo é salgado. Seja noite, seja dia. Ora é seco, ora é molhado. Só que na areia é demorado e no mar passa apressado.

Em Areia Azul aprendi que o azul pode ser preenchido de várias formas e de várias cores. Pode ter peixe ou pássaro, ser branco ou ser laranja.... As areias me mostraram como não se repetem as ondas.

E as ondas carregaram minhas certezas, se foram na correnteza. 


Eu, nada a fazer, observei.