quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Rua do Imperador

Impera-dor,
Tuas esquinas refletem meu temor.
Meus olhos a amargar.
É noite, tuas calçadas viram lar.

Percorro teu calvário,
Paro no sinal vermelho,
Observo teus rostos pelo espelho.
O sinal verde é implacável, sigo solitário.

Noturnos, somos todos invisíveis,
Sejam homens frívolos ou sensíveis.
Dos emparedados do convento,
Aos vivos nu vento.

O eco do vazio de teus prédios
Me tira do pensamento o tédio.
Sonho teus improváveis dias de grandeza,
Escondidos sob camadas de tintas espessas.

Acordo pelo silêncio opressor de tuas portas fechadas.
Só restou calçadas.
O passado nunca está morto.

É noite, sigo absorto.


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bem-me-quer

Ele foi o meu primeiro amor,
meio-dia de calor,
mas a timidez foi mas forte,
com ele, só as outras tiveram sorte.

Ele foi o mormaço da comodidade
ou questões mal-resolvidas da idade.
Não o quero mais por perto,
foi o que por mais tempo deu certo.

Ele me mostrou nossa árvore
e disse "me devore".
Foi um touro animal,
derrubei sua árvore com cal.

Ele me cantou num show
fomos rock-and-roll.
Aventuras de amor ao infinito,
Seu jardim era um agito.

Ele me tirou pra dançar,
eu  só queria amar.
Me fez sua amante, sua amiga,
sequei sem lágrimas nem brigas.

A ele lhe quero bem
bem-me-queres também?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Guararapes

Da parada pro colégio,
Do colégio pro trabalho,
Do trabalho pra faculdade.
Andei, esperei e atravessei em todos os pontos da Guararapes.

Do sebo, onde comprava livros do professor,
Dos Correios, de onde colecionava os selos,
Das filas de Sítio dos Pintos, Torrões, Monsenhor Fabrício, Roda de Fogo, etc.
Em média 45 minutos de espera.

Do happyhour do expediente,
Do Savoy, onde cantei quase em inglês,
Do Destaq, onde as saideras não tinham fim,
E ônibus elétrico! foi delícia e foi tormento para mim.

Dos dias que antecedem o Galo,
Dos apitos de cocoricós,
Dos coloridos de carnavais.
Guararapes a pé pra nós!

Dos sapateiros, livreiros e pipoqueiros,
Do algodão doce e da água coco,
Dos vinis, santos, rosas e panfletos
- Aceito vale A, vale B, vale C, ticket ou um beijo!

Dos prédios vazios,
Das paredes descascadas,
Das festas noturnas escondidas,
Aventuras loucas de idas e vidas!

Do tarado do ônibus, do ladrão de celular, dos cheira-colas,
Dos pedintes, dos mendigos, dos loucos diversos,
Do grito, da bolsa apertada no braço, da carreira, dos conselhos.
Essa parte nunca esqueço!

Do banco às bancas de jornais.
Dos contratos aos noticiários.
Do trabalho  ao passatempo.
Fudidos, achados e perdidos, todos unidos!

Das chances de mudar de vida às filas pra pagar a conta.
Da cópia do documento à falta de monumento.
Do artesanato ao quiosque mais barato
Tudo aqui segue um compasso

Do passo
Da pressa
De quem atravessa
sem desespero
no sinal vermelho
sem medo da morte
pois confia na sorte
e reza
pra chegar no endereço
Guararapes
Eu também envelheço!


Quem são os isentos?

No aniversário da falsidade
Encontrei todos os felizes da cidade
Entre um brinde, um sorriso e um abraço
venenos melando os braços.
Um gole para o não dito,
Na boca o desejo de mandar todos ao infinito.

Mentiras de porta-retratos,
Mentiras de internet e TV
Mentiras pra vê, lê e ser.

Entre um chope e um caldinho de feijão,
beijo e sinceros apertos de mão,
tento me adaptar ao mundinho 
miseravelmente humanalzinho
Mas, aqui pra nós, não sei por que tento...
Se somos todos isentos.






quinta-feira, 30 de julho de 2015

A praia V

30 segundos de espera
e do sangue
de meus olhos ardentes
vejo fugidia
uma praia

Onde as ondas são palavras
que ora dizem
ora contradizem
as areias da praia

A praia IV

À praia

Esquecida
atrás da linha do horizonte
onde o sol afundou ontem.

Clássica
de cinzenta natureza
aprisionada por sua beleza.

Fugitiva
que busco na claridade da cidade
como quem busca a felicidade.

Rotulada
que nunca pediu pra ser verdade
só um espaço de liberdade.

A praia III

A praia

Do esquecimento.
De que matéria és feita?
De fronteiras de luz.
Para olhos ardentes, uma incerta penumbra
E o silêncio das ondas, onde brotam rochas profanas.

O vento
A iluminação
A dúvida

Me aceitas?
Resquícios do elo entre o homem, a cultura e a natureza

O primeiro passo para a liberdade.