Só, o riso.
A boca é um sol.
O rosto aquecido
e eu esquecido.
Do que? De quem?
Das coisas do vai-e-vem.
Ah! Você...
Você... você,
Que quero tão, bem!
quarta-feira, 8 de maio de 2013
quarta-feira, 1 de maio de 2013
O diário de Clara
O telefone tocou. Clara correu para atender. Poderia ser João ou os novos amigos, com os quais havia combinado de passar o restante das férias. Mentiram para os pais, na verdade viajariam sós, sem adultos. Para Clara era uma mentirinha boba.
Renata, mãe de clara, não gostava muito das novas amizades. Achava que a filha estava mudando de comportamento, que não respeitava mais os pais. Clara se sentia incompreendida. As brigas entre as duas eram constantes. O pai, Carlos era mais condescendente, aceitava as vontades da filha, dificilmente impunha restrições.
-Alô!
-Mudanças de planos princesa!
Era a voz de joão. O coração de Clara acelerou. Ele era o principal motivo para ela não querer viajar com os pais para a casa da montanha, como sempre fizeram. João era mais velho, quase de maior, um misto de príncipe e 'badboy'. Clara era a menina dele. E ele, o primeiro namorado dela. Os pais não sabiam. Renata jamais aprovaria que sua filhinha namorasse um homem de verdade, que raiva!
João lhe ensinava o que era sexo, desejo. A vida com ele era sempre festa. Clara tinha aprendido a beber, a amar e também a fumar. Renata, por duas vezes, socorreu a filha, que passou mal por excessos alcoólicos. Minha filha, não foi pra isso que te damos educação. Você não era assim, são seus amigos, estão lhe destruindo.
Clara mandava a mãe calar a boca. Ficavam sem se falar e depois agiam como se nada tivesse acontecido. Renata não encontrava apoio no marido, o qual achava que era coisas da idades, depois passa, não sabia mais o que fazer.
-Oi joão! Meus pais estão me esperando, já estão no carro, voltei apenas pra buscar um casaco, eles vão me deixar na estação. Lá nos encontramos...Que mudança?
-Consegui um carro emprestado, vou te buscar. Estamos pensando em fazer uma festa também. Diz aos velhos qualquer história e me espera aí, depois te explico. Beijo.
-beijo. E desligou.
Clara abriu a janela da sala e gritou aos pais mais uma mentira. Deu adeus e desejou boas férias, falou que ficaria sempre com o celular ligado para manterem contato.
Carlos ligou o carro e saiu. Renata, do banco do carona, ainda olhou para trás, o coração não mão. “Deus proteja minha filha”.
Clara então foi procurar o casaco, não estava no seu quarto. Foi ao quarto dos pais. Será que algum dos casacos de mãe fica bom em mim?. Enquanto remexia no guarda-roupa, uma caixa caiu no chão, abrindo-se. Dentro diversos cadernos envelhecidos. Abaixou-se pegou um deles, abriu-o no meio.
Vejo minha filha repetir os erros que cometi quando era jovem, espero que esteja enganada, não quero vê-la sofre. Se arrepender das escolhas feitas. Gostaria que ela não tivesse que passar pelo que passei para amadurecer, para compreender a vida...nem todos os amigos são verdadeiros, são bons.
Clara fechou no susto. Era um diário de sua mãe. Não poderia ler. Mas ela nunca iria ficar sabendo...Cadê joão que não chega? Espero que ele não apareça com aquelas amigas, detesto quando está junto delas. Que demora! Ah! Quer saber, vou ler. Dona Renata sempre tão certa!
E começou a ler. Na primeira página escrito no alto “Clara”. Leu sobre a gravidez de sua mãe, o que quanto havia sido desejada. Sobre a dificuldade que a mãe tivera para engravidar. Sobre a escolha de seu nome 'Clara'. Os primeiros anos de sua vida, a escola, os amiguinhos. Leu também sobre o amor do pai e da mãe, de como amavam aquela filha, única. De como desejavam a sua felicidade e também de como muitas vezes discordavam quando o assunto era sua educação...
Parou a leitura e ligou para joão, não aguentava mais esperar:
-Alô!
-Alô! É Clara, com quem eu falo?
-É Mari, sou amiga do joão.
-Ah! Posso falar com ele? Sou sua namorada.
-João, Mais uma namorada. Atende. Mari ria.
Do outro lado da linha, Clara ouvia o que Mari falava, a raiva aumentando.
-Oi! João desligava o chuveiro e se enrolava na toalha.
-Sou eu Clara. Cadê você? Que demora? Quem é essa Mari? Não conheço nenhuma Mari. Você está onde?
-Calma gatinha! Que brabeza é essa. É só uma amiga, vai viajar conosco. Ou melhor, mudamos os planos, vamos fazer uma festinha aí hoje e viajamos amanhã, certo? É limpeza? Estou terminando de me arrumar, espera aí, tranquilo!
- Ai joão, festa? Tá, tá certo. Mas tenho que deixar tudo em ordem para meus pais não perceberem. João? É só amiga mesmo?
-Beijo linda! Não se preocupe. Chego ai mais tarde com a galera, levamos as bebidas. Fique bonita para mim.
-Tá certo! Vou. Beijo.
João voltou ao banho, acompanhado de Mari e Clara ficou em casa, esperando. As lágrimas já desciam no rosto quando resolveu continuar a ler o diário. No fundo sabia que João a traía, sentia raiva dele, mas o amava, sentia-se culpada. Era jovem, não tinha um corpão, não tinha a mesma experiência que as outras amigas de joão. Tentava ser igual a elas, tentava agradá-lo, mas parecia que nunca conseguia ser boa o bastante. E agora mais essa! Outra festa. Abriu o diário, avançou as páginas, queria chegar até o momento atual, continuou a ler.
Sei que minha filha está envolvida com algum rapaz, percebo a mudança no seu corpo, nas suas atitudes. Mas vejo que não é algo bom, ela está sempre com raiva, brigando, não aceita o que dizemos. Cada dia o diálogo fica mais difícil. Às vezes escuto seu choro, fico atras da porta de seu quarto escutando. Tenho vontade de entrar, de lhe acalentar, de conversar com ela, de saber quem está lhe machucando...Clara se veste, se comporta como se quisesse parecer mais velha. Ela não se aceita. Como gostaria de estar do seu lado, de dizer 'minha filha, quando o amor é de verdade, ele aceita as pessoas como elas são, não é preciso deixar de ser quem é. Isso não é de verdade, isso é jogo, é diversão'. Me vejo em Clara, antecipo sua frustração, falsos amores juvenis. 'não é preciso deixa de ser quem é Clara, se ele gosta de você, vai gostar do jeito que você é'...
Clara chorava, no fundo concordava com as palavras de sua mãe. Aquela não era ela, bebia, fumava, aguentava aqueles amigos, tudo era para ficar perto dele, para conquistá-lo, para ser aceita. Continuou a ler.
Clara não quis viajar conosco. Vai ficar com esses novos amigos, creio que algum deles seja o tal namorado. Deixamos. Foram muitas brigas, discussões... Meu Deus já não sei como chegar em minha filha! Saímos de casa, ela ficou, alguém lhe telefonou, desistiu de nossa carona até a estação de trem.
Clara parou de ler assustada. Aquilo não poderia ser possível. Não poderia estar escrito. Tinha acabado de acontecer, sua mãe estava no carro, não tinha como escrever isso, ela não tinha retornado a casa. Ainda assustada e sem entender o que se passava continuou a ler, o diário estava perto do fim.
Foram 5 dias de angustia, ligamos para ela todos os dias, diversas vezes, nunca atendia. Até que resolvemos voltar, não via a hora de chegar. Arrependida de tê-la deixado ficar com esses novos amigos, sequer conheci os pais deles. Como pude! Devia ter sido mais rígida, não devia ter cedido.
Ainda na estrada, não vejo a hora de chegar, espero que esteja tudo bem com nossa pequena. Precisamos conversar.
Clara estava angustiada. Como podia ler algo que ainda não havia acontecido.? Nada disso podia ser real, estava dormindo? Não, estou acordada, isso realmente está acontecendo. Nervosa, continuou a ler.
O portão estava aberto, do jeito que deixamos, a janela também, aberta. Corri para casa, Carlos estava assustado. Quando entramos, uma bagunça, bebidas em todos os cantos, subi as escadas até o quarto de Clara...Encontrei minha filha já sem vida há alguns dias, o corpo fedia. Estava nua, ao seu lado manchas de vômito. Havia bebidas, cigarros e drogas espalhados no quarto. O laudo médico foi conclusivo, parada cardíaca. Overdose. Como todos os participantes da festa eram menores, ninguém foi preso. Nem João, o namorado, que confessou ter oferecido a droga a Clara.
...
Carlos se culpa até hoje, mais de 5 anos se passou. Nossa vida, se é que podemos chamar de vida, é marcada por nossa culpa. Abandonamos quem mais amamos.
...
Ainda continuo a sentir sua presença, a escutar sua voz, seus passos, não quero ir embora dessa casa. Carlos acha que faz mal ficarmos. São muitas lembranças.
...
Vamos nos mudar em breve, estou encaixotando as coisas. Não levarei os diários, não devo viver mais no passado. Espero ainda poder ser feliz, com Carlos, vamos tentar viver!
Clara parou de ler. Olhou ao redor, poeira, quase não havia móveis, a casa estava vazia. No chão uma caixa aberta com cadernos empoeirados. Os diários. Pegou um lápis que havia na caixa e escreveu no resto da última folha do caderno que tinha em mãos.
Te amo mãe, te amo pai, me perdoem por tê-los causado tanta dor, obrigada por tudo! Obrigada pela vida! Compreendo mãe... minha vida foram minhas escolhas. Adeus.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Hotel das Flores
Fora sua última viagem de negócios. Tinha prometido à esposa que se aposentaria. Dessa vez não iria voltar atrás. Foram muitos anos de trabalho, muitas viagens...
Não teria chegado ao patamar que cheguei se não fosse assim.
É, tinham uma vida bastante confortável, uma bela casa, um belo jardim. Mas o quanto ela tivera que suportar... Um marido ausente, por vezes impaciente, sempre focado no trabalho e as viagens constantes. A solidão de uma casa vazia.
Não tivemos filhos, não houvera tempo. Agora é tarde.
Mas se aposentaria. Receio como será. Mas estava resoluto. Eu prometo, Lídia, vamos recuperar o tempo...
- Chegamos senhor.
- Obrigada. Pagou o táxi, pegou as malas e dirigiu-se a porta de sua casa. apertou a campainha diversas vezes, ninguém atendeu. Remexeu nas malas, achou a chave...entrou. O telefone tocou.
-Alô?!
-Escute-me. venha buscar sua esposa no Hotel das Flores, quarto 1001.
Não teve tempo de responder, a ligação havia sido rompida. Apenas aquela voz masculina ressoava em sua cabeça. Largou as malas onde estavam, correu a casa chamando pela esposa. Sem resposta, saiu em disparada ao hotel, nem a porta da casa fechou.
- Táxi, táxi!. Motorista, por favor, Hotel das Flores...Esse nome?
No caminho, milhares de idéias se passavam em sua cabeça e ao mesmo tempo nenhuma. O que estava acontecendo? o que é tudo isso? Hotel? Lídia não seria capaz de ter um amante, não temos mais idade para isso.
Desceu do táxi e subiu até o quarto 1001. Um homem com uniforme do estabelecimento abriu a porta. Imediatamente viu sua esposa sentada em uma poltrona próxima à janela, foi até ela. Lídia voltou a cabeça em sua direção e em seguida tornou a olhar pela janela.
-Meu amor, o que Foi? O que você faz aqui? Olhe para mim! O que está acontecendo? que loucura! Você está doente? Febre? Olhe para mim! Sou eu.
Lídia não respondia, o olhar fixo, mas calmo, em direção à janela.
- O que se passa aqui? Perguntou voltando-se em direção ao funcionário do hotel, mas este já havia saído.
Sem saber o que acontecia a sua esposa, tentou de tudo para chamar sua atenção, fez perguntas e comentários aleatórios, contou como havia sido a viagem, falou até dos planos de aposentadoria. Ela, imóvel. Ligou, então, para a portaria do Hotel, ninguém atendeu. O celular! Droga! Ficou dentro da mala.
Molhou um pano e passou pela testa de sua esposa. Chamou-a em voz baixa. Suplicou-lhe que voltasse. Bateu em sua face. Nada. Não quero te deixar só. Que hotel era esse?
Sentou-se na cama. Como as horas passam rápidas. Parecia uma eternidade que estava alí. Olhou o relógio. Sentia-se só. Lídia era seu porto seguro. Era ela quem cuidava dele, nunca o contrário. Não sei mais o que fazer!
- Vou me aposentar, meu amor, lhe juro, decidi. Vou cuidar de você. Volte, olhe para mim, olhe pra mim! Nada adiantava.
Tentou sair com ela do quarto. levantou-a da poltrona. Mas não conseguiu senão alguns passos. Deitou-a na cama e sentou-se a seu lado.
- O que está acontecendo? O que fiz errado? Acorde, acorde. Te amo, não faça isso comigo. Lídia, volte! Chorou.
Exausto deitou-se ao seu lado. Segurou sua mão. Mãos finas, quentes. Ficou a lhe olhar. Como podia ser tão calma? Esse olhar tranquilo. Foi e continuava a ser bonita. A idade lhe fazia bem. As vezes acho que nunca te conheci ao certo...é minha culpa, Desculpa Lídia. Quando foi que deixei de te olhar? Quando foi que parei de escutar teu riso? O que nos aconteceu?
Ergueu-se, sentou-se ao lado da esposa e começou a despir-lhe a roupa lentamente. Prestava atenção em cada parte de seu corpo. Cada dobra, ruga de expressão, cada sinal do tempo despertava em sua cabeça lembranças de um passado quase esquecido. A primeira vez nos vimos...o beijo! Vibrava só de te ver, como eramos jovens. quantas vezes fiquei escondido te espiando...o teu sorriso.
Despiu-se e entregou-se ao universo de Lídia, de corpo, de alma, inteiro.
...
Acordei, quarto 1001. Lídia já estava de pé, colocava as flores do nosso casamento em um jarro, sorriu quando me viu acordado e afastou as cortinas.
- Meu amor, meu marido! Eu te amo e vou te amar para sempre!
O quarto cheirava a Lídia.
Levantei-me, fui ao seu encontro. Abraçados, nos beijamos e ficamos a admirar a paisagem pela janela do hotel, era primavera.
- Quantos anos faz?
- Muitos.
- Por que te abandonei...
- Sempre te esperei. Mas foram tantos anos que não lembrava mais ao certo de teu rosto, de teu corpo, de tua voz... Como não te achava mais dentro de mim, saí de casa, resolvi te procurar e pensei que aqui te encontraria. Deixei recado de que estava em teu aguardo, me sentei e esperei. Desculpa se não te reconheci, se não te ouvi, me perdoa, foi a distância, a ausência, eu não queria, eu esqueci...
- Me desculpe, meu amor. Não diga nada. Foi uma longa viagem, mas voltei. Nos encontramos. Vamos recomeçar... Carinhosamente a beijei.
E como há muitos anos descemos do Hotel das Flores, quarto 1001, de mãos dadas, casados, felizes, com uma vida pela frente.
Não teria chegado ao patamar que cheguei se não fosse assim.
É, tinham uma vida bastante confortável, uma bela casa, um belo jardim. Mas o quanto ela tivera que suportar... Um marido ausente, por vezes impaciente, sempre focado no trabalho e as viagens constantes. A solidão de uma casa vazia.
Não tivemos filhos, não houvera tempo. Agora é tarde.
Mas se aposentaria. Receio como será. Mas estava resoluto. Eu prometo, Lídia, vamos recuperar o tempo...
- Chegamos senhor.
- Obrigada. Pagou o táxi, pegou as malas e dirigiu-se a porta de sua casa. apertou a campainha diversas vezes, ninguém atendeu. Remexeu nas malas, achou a chave...entrou. O telefone tocou.
-Alô?!
-Escute-me. venha buscar sua esposa no Hotel das Flores, quarto 1001.
Não teve tempo de responder, a ligação havia sido rompida. Apenas aquela voz masculina ressoava em sua cabeça. Largou as malas onde estavam, correu a casa chamando pela esposa. Sem resposta, saiu em disparada ao hotel, nem a porta da casa fechou.
- Táxi, táxi!. Motorista, por favor, Hotel das Flores...Esse nome?
No caminho, milhares de idéias se passavam em sua cabeça e ao mesmo tempo nenhuma. O que estava acontecendo? o que é tudo isso? Hotel? Lídia não seria capaz de ter um amante, não temos mais idade para isso.
Desceu do táxi e subiu até o quarto 1001. Um homem com uniforme do estabelecimento abriu a porta. Imediatamente viu sua esposa sentada em uma poltrona próxima à janela, foi até ela. Lídia voltou a cabeça em sua direção e em seguida tornou a olhar pela janela.
-Meu amor, o que Foi? O que você faz aqui? Olhe para mim! O que está acontecendo? que loucura! Você está doente? Febre? Olhe para mim! Sou eu.
Lídia não respondia, o olhar fixo, mas calmo, em direção à janela.
- O que se passa aqui? Perguntou voltando-se em direção ao funcionário do hotel, mas este já havia saído.
Sem saber o que acontecia a sua esposa, tentou de tudo para chamar sua atenção, fez perguntas e comentários aleatórios, contou como havia sido a viagem, falou até dos planos de aposentadoria. Ela, imóvel. Ligou, então, para a portaria do Hotel, ninguém atendeu. O celular! Droga! Ficou dentro da mala.
Molhou um pano e passou pela testa de sua esposa. Chamou-a em voz baixa. Suplicou-lhe que voltasse. Bateu em sua face. Nada. Não quero te deixar só. Que hotel era esse?
Sentou-se na cama. Como as horas passam rápidas. Parecia uma eternidade que estava alí. Olhou o relógio. Sentia-se só. Lídia era seu porto seguro. Era ela quem cuidava dele, nunca o contrário. Não sei mais o que fazer!
- Vou me aposentar, meu amor, lhe juro, decidi. Vou cuidar de você. Volte, olhe para mim, olhe pra mim! Nada adiantava.
Tentou sair com ela do quarto. levantou-a da poltrona. Mas não conseguiu senão alguns passos. Deitou-a na cama e sentou-se a seu lado.
- O que está acontecendo? O que fiz errado? Acorde, acorde. Te amo, não faça isso comigo. Lídia, volte! Chorou.
Exausto deitou-se ao seu lado. Segurou sua mão. Mãos finas, quentes. Ficou a lhe olhar. Como podia ser tão calma? Esse olhar tranquilo. Foi e continuava a ser bonita. A idade lhe fazia bem. As vezes acho que nunca te conheci ao certo...é minha culpa, Desculpa Lídia. Quando foi que deixei de te olhar? Quando foi que parei de escutar teu riso? O que nos aconteceu?
Ergueu-se, sentou-se ao lado da esposa e começou a despir-lhe a roupa lentamente. Prestava atenção em cada parte de seu corpo. Cada dobra, ruga de expressão, cada sinal do tempo despertava em sua cabeça lembranças de um passado quase esquecido. A primeira vez nos vimos...o beijo! Vibrava só de te ver, como eramos jovens. quantas vezes fiquei escondido te espiando...o teu sorriso.
Despiu-se e entregou-se ao universo de Lídia, de corpo, de alma, inteiro.
...
Acordei, quarto 1001. Lídia já estava de pé, colocava as flores do nosso casamento em um jarro, sorriu quando me viu acordado e afastou as cortinas.
- Meu amor, meu marido! Eu te amo e vou te amar para sempre!
O quarto cheirava a Lídia.
Levantei-me, fui ao seu encontro. Abraçados, nos beijamos e ficamos a admirar a paisagem pela janela do hotel, era primavera.
- Quantos anos faz?
- Muitos.
- Por que te abandonei...
- Sempre te esperei. Mas foram tantos anos que não lembrava mais ao certo de teu rosto, de teu corpo, de tua voz... Como não te achava mais dentro de mim, saí de casa, resolvi te procurar e pensei que aqui te encontraria. Deixei recado de que estava em teu aguardo, me sentei e esperei. Desculpa se não te reconheci, se não te ouvi, me perdoa, foi a distância, a ausência, eu não queria, eu esqueci...
- Me desculpe, meu amor. Não diga nada. Foi uma longa viagem, mas voltei. Nos encontramos. Vamos recomeçar... Carinhosamente a beijei.
E como há muitos anos descemos do Hotel das Flores, quarto 1001, de mãos dadas, casados, felizes, com uma vida pela frente.
domingo, 21 de abril de 2013
Uma réstia de luz no chão
Uma réstia de luz no chão
ameaça destruir minha dor
com outra cor.
Aperto os olhos, conservo o sofrimento,
sou avesso às mudanças,
sempre falsas esperanças.
Mas não consigo represar por muito tempo...
Mesmo de olhos fechados,
sinto em meu rosto escorrer a umidade dos sentimentos,
que aquecidos, são esquecidos e evaporam.
A dor seca,
a alma se acalma,
a carne se rende.
Abro os olhos,
meu sentimentos
são o azul anil
do firmamento.
ameaça destruir minha dor
com outra cor.
Aperto os olhos, conservo o sofrimento,
sou avesso às mudanças,
sempre falsas esperanças.
Mas não consigo represar por muito tempo...
Mesmo de olhos fechados,
sinto em meu rosto escorrer a umidade dos sentimentos,
que aquecidos, são esquecidos e evaporam.
A dor seca,
a alma se acalma,
a carne se rende.
Abro os olhos,
meu sentimentos
são o azul anil
do firmamento.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Reflexos
A fila estava imensa. Roupa, sapatos, cabelo, batom, perfume e uma última conferida no espelho. Forçou o sorriso, que cara de cansada, mais uns drinks sei que me animo, maquiagem ok! Quem sabe hoje não conheço alguém especial?
Hoje vou arrasar e aguardava a vez de entrar.
Ana tinha 32 anos, morava só, trabalhava de segunda a sexta, fazia pós - graduação, aula de inglês, academia de ginástica. Saía de casa às 7hs e voltava às 22hs. Sua rotina era similar a de outras jovens de sua idade, seus objetivos também os mesmos: um bom emprego, um lar, constituir uma família, ser feliz.
Sexta - feira, sentia todo o peso da semana, dos compromissos cumpridos, dos adiados, do trabalho, do trânsito, das aulas, da dieta, da ânsia de um futuro incerto...A vontade era de dormir todo o final de semana.
Mas estava solteira, então, como outras, estava lá, na fila da boate do momento, cumprindo com a obrigação de se divertir, mostrando para todos o quanto era feliz.
Após uma longa espera, troca de olhares, conversas aleatórias, drinks e uns cigarros, chegou sua vez. Entrou. Mais uma noite, mais uma festa, novos amores?
Foi direto ao banheiro e seguiu o ritual de sempre: retocou o pó e o batom, mexeu no cabelo, sorriu para si e saiu, cheia de si.
Bar, vodka, pista, ver e ser vista. E dançou, dançou dançou, movida pela vontade de sentir prazer e de esquecer. E esqueceu de si, e tomou outras doses, e voltou ao banheiro, e retocou a maquiagem e viveu o ápice do prazer quimicamente elaborado.
O som, o som, o som, o sorriso e vermelho, a língua, o beijo, tum, tum, tum, barulho, homens, mulheres, o sexo, luz, sombra, a fumaça, as pessoas, a pele, o amanha, futuro? Solidão, e gira, e gira, e gira...Não consigo respirar! Fantasmas, o chão.
Levantou - se com a ajuda de estranhos conhecidos e cambaleando sentou - se ao bar, acendeu um cigarro, pediu outra dose e olhou com desprezo para a pista, para os outros. Na boca um gosto de vergonha.
Tanta produção, vícios, esforço, em vão, sentia pena de si...e baixou a cabeça. Foi então que se viu, refletida na superfície do balcão.
A princípio não se reconheceu, via uma mulher mais velha e sofrida. Mas logo percebeu o engano, era ela, não lhe agradava, mas era ela mesma. Tinha um semblante de quem carrega o fado do futuro não realizado, dos sonhos interrompidos, das más escolhas feitas por si e atribuídas ao destino.
Toda solidão e ansiedade estavam estampadas em sua cara, a maquiagem estava borrada. Ana se viu, viu e chorou. Deixou que as lágrimas lhe lavassem o rosto e os sentimentos. Alheia a todo o ambiente, às pessoas, ao movimento, ao som e à luz, apenas chorava.
Olhou-se novamente, nunca havia se sentido tão inteira, consciente de si mesma. Olhou ao redor e viu marionetes a dançar, a beijar, a beber, a flertar, movimentadas pelas cordas da música alta, tudo é tão opaco! Nada era real. Futuros inteiros aspirados, vividos em horas que rapidamente passam e eu, nua, eu corro, nua, eu, no sol...
Despertou com o apagar do jogo de luz, não havia mais pessoas, se levantou, saiu, para trás não olhou.
Sombra
De tanto silenciar o pranto
perdi a voz,
dei adeus ao canto.
Mesmo nos momentos alegres
o som não aparecia.
Eu não mais ouvia.
O mundo era apenas imagens
e eu só exergava miragens.
É que quando o pranto é mudo
não lava a alma,
seca os olhos, a voz, os ouvidos,
enevoa todos os sentidos.
E sem sentir nada faz sentido...
Nem o pranto,
nem o riso,
nem o canto
ou qualquer espécie de encanto.
Até a melancolia,
sem sentido, desaparecia.
A carne,
sem o tato, não existia.
Silêncio
era tudo o que havia.
Desapareci.
Sou silêncio,
ora negro, ora cinzento,
com trajes de noite
em plena luz do dia.
perdi a voz,
dei adeus ao canto.
Mesmo nos momentos alegres
o som não aparecia.
Eu não mais ouvia.
O mundo era apenas imagens
e eu só exergava miragens.
É que quando o pranto é mudo
não lava a alma,
seca os olhos, a voz, os ouvidos,
enevoa todos os sentidos.
E sem sentir nada faz sentido...
Nem o pranto,
nem o riso,
nem o canto
ou qualquer espécie de encanto.
Até a melancolia,
sem sentido, desaparecia.
A carne,
sem o tato, não existia.
Silêncio
era tudo o que havia.
Desapareci.
Sou silêncio,
ora negro, ora cinzento,
com trajes de noite
em plena luz do dia.
domingo, 7 de abril de 2013
New Idade Média
Imensos templos new-góticos se erguem loteando o firmamento.
Árvores são entre grades aprisionadas.
Pessoas transitam nas sombras, sobre ou subterrâneas.
E eu, na Idade Média da Contemporaneidade,
como hambúrguer com coca-cola
para afugentar esses pensamentos opacos...
pela transparência com que os letreiros luminosos
apresentam as mais novas orações...
ações, ações, ações, business.
Tenho que pagar a conta!
Abro a bolsa, procuro Deus
(queria o toque do sol)
Mas estou só.
Na Igreja do Consumo,
se não tenho dinheiro,
sumo.
Árvores são entre grades aprisionadas.
Pessoas transitam nas sombras, sobre ou subterrâneas.
E eu, na Idade Média da Contemporaneidade,
como hambúrguer com coca-cola
para afugentar esses pensamentos opacos...
pela transparência com que os letreiros luminosos
apresentam as mais novas orações...
ações, ações, ações, business.
Tenho que pagar a conta!
Abro a bolsa, procuro Deus
(queria o toque do sol)
Mas estou só.
Na Igreja do Consumo,
se não tenho dinheiro,
sumo.
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